Palavra que aproxima

“Nós, humanos, pertencemos uns aos outros, mas não da maneira dos fanáticos , e não da maneira comercialmente infantil. Pertencemos uns aos outros no sentido às vezes atingido na boa literatura: no dom da curiosidade, na aptidão para imaginar a vida na pele de cada um dos outros. E depois o momento de graça, o momento metaforicamente judaico no qual traduzimos nossas profundas diferenças individuais no milagre das pontes construídas por palavras.”

Amós Oz

O tom do texto e o tom da voz são poderes paralelos, que vão além do significado da palavra e podem ajudar na construção de pontes ou, então, no erguimento de barreiras, na efetividade da comunicação ou na rejeição do receptor. Pensar no poder das pontes faz com que pensemos com mais cuidado na seguinte escolha: que tom queremos para a nossa comunicação?

Desenvolver a aptidão para imaginar a vida na pele de cada um dos outros é um gesto de empatia, de compreensão, mas também um passo na busca da efetividade da comunicação. Um discurso carrega impresso em si a história daquele que fala e também a sua intenção. Quando lapidado, carrega em si as palavras certas, capazes de construir uma conexão com o outro. Uma ponte para um outro coração, para uma outra história, para um novo encontro.

Se o caos se insinua em qualquer situação, o valor do uso de palavras-ponte torna-se ainda maior. Elas permanecem como milagres disponíveis, milagres ao alcance de ricos mortais. Ricos em curiosidade pelo outro, ricos em capacidade de percepção do outro, ricos na disposição de dar a palavra-aconchego. Ricos porque quem dá palavra-generosidade, recebe palavra-bênção em troca.

 Em 2019, a Soma palavra e forma quer continuar construindo pontes junto com você!

“Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…”

Cecília Meireles

Educando na Natureza

“Na medida em que a manhã ganha corpo, a névoa se faz presente, passeando pelo topo das montanhas. Ela tem uma história a contar: a floresta respira. Eu também respiro e o perfume do lírio-do-brejo não me deixa negar.

Na estradinha que leva ao Parque das Neblinas, as flores brancas se apresentam pelo aroma antes mesmo de se fazerem reconhecer pelos olhos.

Ter a natureza como educadora pode ser uma experiência transformadora, que começa com o despertar da curiosidade e segue adiante com muitas descobertas sobre o ambiente natural, sobre si mesmo e sobre o outro. Mas, antes de entrarmos definitivamente nesta trilha de experiências significativas, podemos começar fazendo algumas perguntas…

Para que serve uma vivência ao ar livre? Qual a importância do encontro entre seres humanos e natureza? Por que a natureza?”

Conheça mais e faça o download da publicação: Educando na Natureza

texto: Sibélia Zanon

projeto gráfico: Soma palavra e forma

A história além da história

“Sagas, lendas, tradições, histórias, contos são a quinta-essência dos povos e compõem a história do mundo e dos variados saberes. As palavras estão conosco desde sempre: como gemido, grito, fonia, voz. Elas, primeiro orais e depois escritas, contam a saga da viagem, ficam e constroem a memória de mulheres e homens que não se conformam em perder a vida, tentando converter o temporário em eterno.”

Raul Hermano Osório Vargas

 

Já pensou que as palavras contam histórias além das próprias histórias? Além do recado que pretendem passar, elas falam sobre uma época, sobre uma cultura, sobre as lentes de entender o mundo em um determinado momento histórico.

E dentro de cada trajetória de vida particular? Nossos registros escritos podem nos ajudar a refletir sobre quem somos, sobre nossas práticas e sobre o que queremos. Quem nunca teve um diário soterrado no fundo de uma gaveta? Ou talvez reflexões sobre questões profissionais aguardando por serem revisitadas?

A importância da escrita vai além daquilo que ela captura no momento. O registro escrito pode servir como base para a ressignificação de acontecimentos, de valores, de ações e pode, então, se concretizar em mola propulsora de transformação.

Às vezes, quando falamos em voz alta sobre um acontecimento, passamos a entendê-lo de outra forma. A mesma coisa acontece quando elaboramos uma realidade com palavras escritas. Elas podem nos guiar por novas percepções.

Escrever pode servir para: comunicar uma ideia, compartilhar um desejo, lembrar uma felicidade, desabafar uma dor, poder repetir uma receita, ajudar a entender uma angústia, fazer arte, ser base de reflexão para toda inquietação.

Como estão os seus registros? Que instrumentos você usa, além da máquina fotográfica?

 

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

Todo texto passou pelo teclado de um autor

“A raiz de todas as histórias está na experiência de quem as inventa; o que se viveu é a fonte que irriga a ficção. Isso não significa, é claro, que um romance seja sempre uma biografia dissimulada do seu autor, mas, sim, que em toda ficção, mesmo na mais livremente concebida, é possível rastrear um ponto de partida, uma semente íntima, visceralmente ligado à soma de vivências de quem a forjou.”  

Mario Vargas Llosa

 

Sim, Llosa está falando de ficção e acho essa uma das mais interessantes respostas para a pergunta recorrente: “é autobiográfico?”.

Mas se formos transportar a fala dele para a não-ficção, para o jornalismo, para os retratos da realidade, será que ainda é válida?

Talvez, para responder isso, pudéssemos fazer uma nova pergunta: o fotógrafo fotografa bem porque a máquina dele é boa ou porque ele tem olhos bons?

Provavelmente as duas coisas. Mas os olhos contam mais. É principalmente por conta dos olhos que o fotógrafo vai escolher o ângulo do objeto, vai decidir aquilo que entra e o que sai do enquadramento, vai regular luzes, nublados e clarezas… e vai, assim, tirar o melhor que a máquina tem para dar.

E esses aspectos valem para a fotografia de arte, mas também para a fotografia jornalística. Ainda que seu maior objetivo seja transmitir uma informação, ela não deixa de ser carregada de significados que o fotógrafo ou o editor escolheu passar.

Voltando para Llosa, todas as histórias, não só as de ficção, mas também as matérias jornalísticas passeiam, mesmo involuntariamente, pela biografia de seu autor.

Por mais que se busque a neutralidade ou imparcialidade, sempre haverá um ângulo específico de ver a notícia; um enfoque que privilegie um aspecto mais econômico ou um aspecto mais humano; uma objetividade mais matemática ou uma frase que beire a prosa poética; mais humor ou mais austeridade.

E isso significa que o autor não aprendeu a escrever direito ou não passou pela faculdade de jornalismo?

Nem sempre. Além do fato de o autor trabalhar para uma publicação que tem uma linha editorial específica, isso pode simplesmente significar que ele é um ser humano, uma pessoa influenciável e influenciadora, uma pessoa que carrega uma história, uma pessoa que tem uma bagagem e que já viu diversas paisagens.

Para mim, o mais interessante nisso tudo é que prospectar e receber informações para transformar em comunicação é uma forma de exercitar as lentes, as escolhas, montar o melhor cenário possível.

É, sim, uma forma de arte.

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

Sobre o ordinário ou sobre as dobras da informação

“Sempre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem, das que pertencem à gente comum. Das desimportantes. O oposto, portanto, do jornalismo clássico. Usando o clichê da reportagem, eu sempre me interessei mais pelo cachorro que morde o homem do que pelo homem que morde o cachorro – embora ache que essa seria uma história e tanto. O que esse olhar desvela é que o ordinário da vida é o extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é se torne banal.”

Eliane Brum

 

Desafio e prazer é olhar o ordinário com olhos de extra. Coisa que é especialidade de Eliane Brum e de tantos adultos e crianças, capazes de sentir o encontro com o poeta dentro de si.

O interessante nisso tudo é que não é o fato o que mais importa, como provavelmente o seria no jornalismo convencional, mas o que mais importa é qual história esse fato conta.

Um cachorro mordeu um homem. Quem é esse homem? Quem é esse cachorro? Que passos fizeram com que eles se encontrassem? O cachorro fugiu de uma casa? Havia um buraco na cerca? O homem conhece o dono do cachorro? O que ele pensa sobre isso? Como a sua vida mudou ou não depois do que aconteceu?

Nós pensamos, nós sentimos, nós questionamos. E quem dá voz a isso tudo? Quando nos permitimos dar voz ao que há de mais relevante e profundo dentro de cada um de nós? Por que não damos mais voz ao que nos toca? Ao que nos encanta? Ao que nos amedronta? Ao intangível? Quantas chances nos damos para expressar isso no cotidiano?

Um cachorro mordeu a perna de um homem. Ele foi levado ao hospital e passa bem. O dono do cachorro prendeu-o novamente e diz ter consertado a cerca.

Ou:

Desde aquele dia André mudou seu caminho diário. Agora ele caminha cinco quadras para chegar ao ponto de ônibus. Antes ele caminhava duas quadras. André nunca mais vai esquecer do dia que gerou essa mudança. As coisas capazes de mudar a vida acontecem tão rápido como as coisas banais e, aparentemente, sem significado. Foi assim que André sentiu naquele dia os segundos mais longos do relógio. Um dia que não tinha anunciado nada de espetacular até que André foi interceptado no meio de um passo. (…)

Há momentos em que podemos optar pela informação básica, direta e objetiva. Mas há momentos em que podemos optar por conhecer não apenas o que está na superfície, mas também o que se oculta nas dobras da informação.

E você? Você tem dado voz às dobras do seu cotidiano?

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

somar para ser +

“Pois eu digo que os primeiros químicos foram os cozinheiros! A cozinha é um laboratório onde o fogo separa as coisas que estão juntas e ajunta as coisas que estão separadas.”

Rubem Alves – Vamos construir uma casa? – Doze lições para a educação dos sentidos

 

É verdade que não estamos abrindo uma confeitaria.

soma – palavra e forma é o novo nome da agência Indaia Emília Comunicação e Design Gráfico, no mercado desde 2001.

Há uma união metafórica entre o fazer com os ingredientes e o fazer com as palavras.

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