Todo texto passou pelo teclado de um autor

“A raiz de todas as histórias está na experiência de quem as inventa; o que se viveu é a fonte que irriga a ficção. Isso não significa, é claro, que um romance seja sempre uma biografia dissimulada do seu autor, mas, sim, que em toda ficção, mesmo na mais livremente concebida, é possível rastrear um ponto de partida, uma semente íntima, visceralmente ligado à soma de vivências de quem a forjou.”  

Mario Vargas Llosa

 

Sim, Llosa está falando de ficção e acho essa uma das mais interessantes respostas para a pergunta recorrente: “é autobiográfico?”.

Mas se formos transportar a fala dele para a não-ficção, para o jornalismo, para os retratos da realidade, será que ainda é válida?

Talvez, para responder isso, pudéssemos fazer uma nova pergunta: o fotógrafo fotografa bem porque a máquina dele é boa ou porque ele tem olhos bons?

Provavelmente as duas coisas. Mas os olhos contam mais. É principalmente por conta dos olhos que o fotógrafo vai escolher o ângulo do objeto, vai decidir aquilo que entra e o que sai do enquadramento, vai regular luzes, nublados e clarezas… e vai, assim, tirar o melhor que a máquina tem para dar.

E esses aspectos valem para a fotografia de arte, mas também para a fotografia jornalística. Ainda que seu maior objetivo seja transmitir uma informação, ela não deixa de ser carregada de significados que o fotógrafo ou o editor escolheu passar.

Voltando para Llosa, todas as histórias, não só as de ficção, mas também as matérias jornalísticas passeiam, mesmo involuntariamente, pela biografia de seu autor.

Por mais que se busque a neutralidade ou imparcialidade, sempre haverá um ângulo específico de ver a notícia; um enfoque que privilegie um aspecto mais econômico ou um aspecto mais humano; uma objetividade mais matemática ou uma frase que beire a prosa poética; mais humor ou mais austeridade.

E isso significa que o autor não aprendeu a escrever direito ou não passou pela faculdade de jornalismo?

Nem sempre. Além do fato de o autor trabalhar para uma publicação que tem uma linha editorial específica, isso pode simplesmente significar que ele é um ser humano, uma pessoa influenciável e influenciadora, uma pessoa que carrega uma história, uma pessoa que tem uma bagagem e que já viu diversas paisagens.

Para mim, o mais interessante nisso tudo é que prospectar e receber informações para transformar em comunicação é uma forma de exercitar as lentes, as escolhas, montar o melhor cenário possível.

É, sim, uma forma de arte.

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

Sobre o ordinário ou sobre as dobras da informação

“Sempre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem, das que pertencem à gente comum. Das desimportantes. O oposto, portanto, do jornalismo clássico. Usando o clichê da reportagem, eu sempre me interessei mais pelo cachorro que morde o homem do que pelo homem que morde o cachorro – embora ache que essa seria uma história e tanto. O que esse olhar desvela é que o ordinário da vida é o extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é se torne banal.”

Eliane Brum

 

Desafio e prazer é olhar o ordinário com olhos de extra. Coisa que é especialidade de Eliane Brum e de tantos adultos e crianças, capazes de sentir o encontro com o poeta dentro de si.

O interessante nisso tudo é que não é o fato o que mais importa, como provavelmente o seria no jornalismo convencional, mas o que mais importa é qual história esse fato conta.

Um cachorro mordeu um homem. Quem é esse homem? Quem é esse cachorro? Que passos fizeram com que eles se encontrassem? O cachorro fugiu de uma casa? Havia um buraco na cerca? O homem conhece o dono do cachorro? O que ele pensa sobre isso? Como a sua vida mudou ou não depois do que aconteceu?

Nós pensamos, nós sentimos, nós questionamos. E quem dá voz a isso tudo? Quando nos permitimos dar voz ao que há de mais relevante e profundo dentro de cada um de nós? Por que não damos mais voz ao que nos toca? Ao que nos encanta? Ao que nos amedronta? Ao intangível? Quantas chances nos damos para expressar isso no cotidiano?

Um cachorro mordeu a perna de um homem. Ele foi levado ao hospital e passa bem. O dono do cachorro prendeu-o novamente e diz ter consertado a cerca.

Ou:

Desde aquele dia André mudou seu caminho diário. Agora ele caminha cinco quadras para chegar ao ponto de ônibus. Antes ele caminhava duas quadras. André nunca mais vai esquecer do dia que gerou essa mudança. As coisas capazes de mudar a vida acontecem tão rápido como as coisas banais e, aparentemente, sem significado. Foi assim que André sentiu naquele dia os segundos mais longos do relógio. Um dia que não tinha anunciado nada de espetacular até que André foi interceptado no meio de um passo. (…)

Há momentos em que podemos optar pela informação básica, direta e objetiva. Mas há momentos em que podemos optar por conhecer não apenas o que está na superfície, mas também o que se oculta nas dobras da informação.

E você? Você tem dado voz às dobras do seu cotidiano?

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

somar para ser +

“Pois eu digo que os primeiros químicos foram os cozinheiros! A cozinha é um laboratório onde o fogo separa as coisas que estão juntas e ajunta as coisas que estão separadas.”

Rubem Alves – Vamos construir uma casa? – Doze lições para a educação dos sentidos

 

É verdade que não estamos abrindo uma confeitaria.

soma – palavra e forma é o novo nome da agência Indaia Emília Comunicação e Design Gráfico, no mercado desde 2001.

Há uma união metafórica entre o fazer com os ingredientes e o fazer com as palavras.

Continue lendo