Cheguei!

Voltei de viagem pensando que temos o hábito de romantizar as férias. Voltamos geralmente contando como tudo é lindo, como foi maravilhoso sair. Depois ficamos com as fotos e elas testemunham o melhor daqueles dias. Logo esquecemos a bolha no pé, o mau jeito no ombro ao carregar a mala atabalhoadamente, do hotel que não era tão bom.

Sim, descansar a mente ao ver novas paisagens é fundamental e o novo nos cutuca da estagnação.

Mas, tenho pensado muito na energia que nos acompanha a cada novo dia do cotidiano.

Será que daria para deixar-se cutucar pela vida e imprimir nova energia também no trabalho cotidiano?

Numa palestra, o rabino Nilton Bonder questionou: “A sua rotina tem uma relação de integridade com quem você é?” Segundo ele, essa relação faria com que cada um se arrastasse da cama como um escravo ou pulasse dela como um ser livre. Em Walden, Henry David Thoreau dá um empurrãozinho lindo nessa reflexão: “Temos de aprender a redespertar e nos manter despertos, não por meios mecânicos, mas por uma infinita expectativa da aurora, que não nos abandona nem mesmo em nosso sono mais profundo. Desconheço fato mais estimulante do que a inquestionável capacidade do homem de elevar sua vida por um esforço consciente.”

Sibélia Zanon | Agência de comunicação soma palavra e forma: a energia de cada dia

Memórias passadas a limpo

Fiz uma arrumação no meu escritório.

Nas entranhas daqueles armários havia histórias de estudos e trabalhos. Fazia tempo que não passeava por aqueles becos.

A arrumação já finalizada trouxe uma revelação importante!

Após revisitar diversas etapas – estudos e cursos passados, trabalhos que foram significativos, publicações que fazem parte do meu portfólio e papeladas que foram recicladas – notei que alguns textos que escrevi numa determinada época, trabalho que não teve longa duração, tinham ganhado certa idealização na minha memória.

Mas, quando olhei as diversas anotações, pesquisas e entrevistas feitas para elaborar aqueles textos, notei que eu precisava seguir muitas regras, havia pouca liberdade criativa ou mesmo autonomia para aquele tipo de escrita.

E então – Eureka! – percebi o quanto eu estava idealizando aquela fase de trabalho e que o meu trabalho de hoje tem ingredientes pra lá de especiais que eu não estava atentando de forma consciente.

Os freelas em educação e meio ambiente, que são o forte na soma palavra e forma, geram a oportunidade de conhecer projetos com uma força transformadora que têm uma linha direta com as coisas que acredito. Propiciam, ainda, a liberdade de exercitar uma escrita e um olhar poéticos sobre mudanças positivas da sociedade. Quem diria que reciclar alguns papéis teria o efeito terapêutico de passar a limpo as memórias? Valeu adentrar as entranhas de madeira. Não pretendo demorar para revisitar aqueles becos – que logo vão se enchendo de novas histórias. Ainda bem!

Sibélia Zanon | Agência de comunicação soma palavra e forma: encantada por boas descobertas

Curiosidade

“Não pergunto a que ponto está chegando o mundo, ou qual será o caminho certo a seguir. Eu me pergunto: ‘E se eu fosse ele? E se eu fosse ela? O que sentiria, desejaria, temeria e esperaria? Do que teria vergonha, esperando que ninguém mais soubesse?’.

Meu trabalho consiste em me pôr no lugar de outras pessoas. Ou mesmo estar em suas peles. A força que me impele é a curiosidade. Eu fui uma criança curiosa. Quase toda criança é curiosa. Mas pouca gente continua a ser curiosa em sua idade adulta e em sua velhice.

Agora, todos sabemos que a curiosidade é condição necessária, até mesmo a primeira das condições, para todo trabalho intelectual ou científico. Mas quero acrescentar que em minha opinião a curiosidade é uma virtude moral. Uma pessoa interessada é uma pessoa um pouco melhor, um progenitor melhor, um parceiro, vizinho e colega melhor do que uma pessoa não curiosa. Um amante melhor também.”

Amós Oz

Quando pequena, eu via a curiosidade associada a algo proibido, talvez maldoso, pura bisbilhotice. Afinal, crianças eram tachadas de curiosas quando perguntavam algo que um adulto não tinha vontade de responder.

Depois fui vendo que a curiosidade tem nuances outras. E poderes outros também. A curiosidade pode ser um motor de solução, talvez um espaço propício ao encantamento. Pode ser antítese da estagnação e da apatia. Uma pessoa curiosa faz descobertas que os não-curiosos nem imaginaram questionar.

Isso porque o interesse é uma abertura de possibilidades para o entendimento de enigmas relacionados ao outro e ao mundo.

E qual a relação disso com a comunicação?

Comunicar pressupõe a existência de um interlocutor que habita seu mundo  peculiar. Comunicar partindo de um espaço de empatia e curiosidade é abrir um canal mais amplo, sensível, e, por isso, com maiores chances de tocar o outro.

Como anda a nossa curiosidade nas relações cotidianas? Temos exercitado o interesse genuíno para compreender o outro?

Educando na Natureza

“Na medida em que a manhã ganha corpo, a névoa se faz presente, passeando pelo topo das montanhas. Ela tem uma história a contar: a floresta respira. Eu também respiro e o perfume do lírio-do-brejo não me deixa negar.

Na estradinha que leva ao Parque das Neblinas, as flores brancas se apresentam pelo aroma antes mesmo de se fazerem reconhecer pelos olhos.

Ter a natureza como educadora pode ser uma experiência transformadora, que começa com o despertar da curiosidade e segue adiante com muitas descobertas sobre o ambiente natural, sobre si mesmo e sobre o outro. Mas, antes de entrarmos definitivamente nesta trilha de experiências significativas, podemos começar fazendo algumas perguntas…

Para que serve uma vivência ao ar livre? Qual a importância do encontro entre seres humanos e natureza? Por que a natureza?”

Conheça mais e faça o download da publicação: Educando na Natureza

texto: Sibélia Zanon

projeto gráfico: Soma palavra e forma

A história além da história

“Sagas, lendas, tradições, histórias, contos são a quinta-essência dos povos e compõem a história do mundo e dos variados saberes. As palavras estão conosco desde sempre: como gemido, grito, fonia, voz. Elas, primeiro orais e depois escritas, contam a saga da viagem, ficam e constroem a memória de mulheres e homens que não se conformam em perder a vida, tentando converter o temporário em eterno.”

Raul Hermano Osório Vargas

 

Já pensou que as palavras contam histórias além das próprias histórias? Além do recado que pretendem passar, elas falam sobre uma época, sobre uma cultura, sobre as lentes de entender o mundo em um determinado momento histórico.

E dentro de cada trajetória de vida particular? Nossos registros escritos podem nos ajudar a refletir sobre quem somos, sobre nossas práticas e sobre o que queremos. Quem nunca teve um diário soterrado no fundo de uma gaveta? Ou talvez reflexões sobre questões profissionais aguardando por serem revisitadas?

A importância da escrita vai além daquilo que ela captura no momento. O registro escrito pode servir como base para a ressignificação de acontecimentos, de valores, de ações e pode, então, se concretizar em mola propulsora de transformação.

Às vezes, quando falamos em voz alta sobre um acontecimento, passamos a entendê-lo de outra forma. A mesma coisa acontece quando elaboramos uma realidade com palavras escritas. Elas podem nos guiar por novas percepções.

Escrever pode servir para: comunicar uma ideia, compartilhar um desejo, lembrar uma felicidade, desabafar uma dor, poder repetir uma receita, ajudar a entender uma angústia, fazer arte, ser base de reflexão para toda inquietação.

Como estão os seus registros? Que instrumentos você usa, além da máquina fotográfica?

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

Todo texto passou pelo teclado de um autor

“A raiz de todas as histórias está na experiência de quem as inventa; o que se viveu é a fonte que irriga a ficção. Isso não significa, é claro, que um romance seja sempre uma biografia dissimulada do seu autor, mas, sim, que em toda ficção, mesmo na mais livremente concebida, é possível rastrear um ponto de partida, uma semente íntima, visceralmente ligado à soma de vivências de quem a forjou.”  

Mario Vargas Llosa

Sim, Llosa está falando de ficção e acho essa uma das mais interessantes respostas para a pergunta recorrente: “é autobiográfico?”.

Mas se formos transportar a fala dele para a não-ficção, para o jornalismo, para os retratos da realidade, será que ainda é válida?

Talvez, para responder isso, pudéssemos fazer uma nova pergunta: o fotógrafo fotografa bem porque a máquina dele é boa ou porque ele tem olhos bons?

Provavelmente as duas coisas. Mas os olhos contam mais. É principalmente por conta dos olhos que o fotógrafo vai escolher o ângulo do objeto, vai decidir aquilo que entra e o que sai do enquadramento, vai regular luzes, nublados e clarezas… e vai, assim, tirar o melhor que a máquina tem para dar.

E esses aspectos valem para a fotografia de arte, mas também para a fotografia jornalística. Ainda que seu maior objetivo seja transmitir uma informação, ela não deixa de ser carregada de significados que o fotógrafo ou o editor escolheu passar.

Voltando para Llosa, todas as histórias, não só as de ficção, mas também as matérias jornalísticas passeiam, mesmo involuntariamente, pela biografia de seu autor.

Por mais que se busque a neutralidade ou imparcialidade, sempre haverá um ângulo específico de ver a notícia; um enfoque que privilegie um aspecto mais econômico ou um aspecto mais humano; uma objetividade mais matemática ou uma frase que beire a prosa poética; mais humor ou mais austeridade.

E isso significa que o autor não aprendeu a escrever direito ou não passou pela faculdade de jornalismo?

Nem sempre. Além do fato de o autor trabalhar para uma publicação que tem uma linha editorial específica, isso pode simplesmente significar que ele é um ser humano, uma pessoa influenciável e influenciadora, uma pessoa que carrega uma história, uma pessoa que tem uma bagagem e que já viu diversas paisagens.

Para mim, o mais interessante nisso tudo é que prospectar e receber informações para transformar em comunicação é uma forma de exercitar as lentes, as escolhas, montar o melhor cenário possível.

É, sim, uma forma de arte.

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

Sobre o ordinário ou sobre as dobras da informação

“Sempre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem, das que pertencem à gente comum. Das desimportantes. O oposto, portanto, do jornalismo clássico. Usando o clichê da reportagem, eu sempre me interessei mais pelo cachorro que morde o homem do que pelo homem que morde o cachorro – embora ache que essa seria uma história e tanto. O que esse olhar desvela é que o ordinário da vida é o extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é se torne banal.”

Eliane Brum

Desafio e prazer é olhar o ordinário com olhos de extra. Coisa que é especialidade de Eliane Brum e de tantos adultos e crianças, capazes de sentir o encontro com o poeta dentro de si.

O interessante nisso tudo é que não é o fato o que mais importa, como provavelmente o seria no jornalismo convencional, mas o que mais importa é qual história esse fato conta.

Um cachorro mordeu um homem. Quem é esse homem? Quem é esse cachorro? Que passos fizeram com que eles se encontrassem? O cachorro fugiu de uma casa? Havia um buraco na cerca? O homem conhece o dono do cachorro? O que ele pensa sobre isso? Como a sua vida mudou ou não depois do que aconteceu?

Nós pensamos, nós sentimos, nós questionamos. E quem dá voz a isso tudo? Quando nos permitimos dar voz ao que há de mais relevante e profundo dentro de cada um de nós? Por que não damos mais voz ao que nos toca? Ao que nos encanta? Ao que nos amedronta? Ao intangível? Quantas chances nos damos para expressar isso no cotidiano?

Um cachorro mordeu a perna de um homem. Ele foi levado ao hospital e passa bem. O dono do cachorro prendeu-o novamente e diz ter consertado a cerca.

Ou:

Desde aquele dia André mudou seu caminho diário. Agora ele caminha cinco quadras para chegar ao ponto de ônibus. Antes ele caminhava duas quadras. André nunca mais vai esquecer do dia que gerou essa mudança. As coisas capazes de mudar a vida acontecem tão rápido como as coisas banais e, aparentemente, sem significado. Foi assim que André sentiu naquele dia os segundos mais longos do relógio. Um dia que não tinha anunciado nada de espetacular até que André foi interceptado no meio de um passo. (…)

Há momentos em que podemos optar pela informação básica, direta e objetiva. Mas há momentos em que podemos optar por conhecer não apenas o que está na superfície, mas também o que se oculta nas dobras da informação.

E você? Você tem dado voz às dobras do seu cotidiano?

Sibélia Zanon

jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário

somar para ser +

“Pois eu digo que os primeiros químicos foram os cozinheiros! A cozinha é um laboratório onde o fogo separa as coisas que estão juntas e ajunta as coisas que estão separadas.”

Rubem Alves – Vamos construir uma casa? – Doze lições para a educação dos sentidos

É verdade que não estamos abrindo uma confeitaria.

soma – palavra e forma é o novo nome da agência Indaia Emília Comunicação e Design Gráfico, no mercado desde 2001.

Há uma união metafórica entre o fazer com os ingredientes e o fazer com as palavras.

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